14. Esther Rossi

Publicado 04/09/2018


 

Resíduos Sólidos e História Ambiental[1]

 

           * Esther Mayara Zamboni Rossi[2]

 

Há muitas maneiras de perceber os resíduos sólidos urbanos, podemos entende-los como um problema particular quando está em nossas casas, mas também como um problema público a partir do momento que disposto nas vias. Ainda é visto como possibilidade de riqueza quando é reaproveitado, formando de pequenos recicladores/catadores a grandes indústrias de reciclagem. É de certa forma um rastro das transformações da cidade, das transformações do nosso consumo e das escolhas que o poder público e os citadinos fazem em relação ao espaço.  O ato de jogar fora de classificar como não utilizável se modifica ao longo do tempo e pode ser visto como um indicativo de diversas outras circunstâncias.

Analisar em uma escala micro de comportamentos individuais, é uma forma de compreender a percepção e o papel dos objetos e dejetos em nossas relações. Estas se estabelecem entre pessoa-objeto de maneira mais perceptível, vide comidas estragadas, excrementos, objetos defeituosos ou fora dos padrões esperados. Porém é nas relações que entendemos suas atuações, por exemplo um sapato não é considerado nojento em si, mas dispô-lo na mesa o é.[3] A relação com os objetos vai além do experimental e instrumental, hierarquizamos suas utilidades, importância e valor impondo sentimentos considerados positivos ou negativos.

Já em uma escala macro, não se pode deixar de pensar que temas centrais das questões ambientais estão relacionados ao lixo. Os resíduos compõem a paisagem urbana com potencial risco de desastre socioambiental. Assim como a sensação de pertencimento está muito ligada ao ambiente, à ideia de nação e a nossa rede de relações interpessoais, mas também pelas “coisas”, os objetos. Estes objetos, com funções essenciais a sobrevivência ou não, tem suas embalagens planejadas para atrair, fidelizar e tornar necessário. Estes produtos dão sentido de grupo aos seus consumidores, dessa forma não são apenas resíduos, são memórias de escolhas reflexivas e/ou induzidas. Estas memórias são indícios das sociedades em que vivemos, como as produzimos, mas principalmente o que fazemos com elas.

As cidades apresentam relações de circularidade de ideias, pessoas, construções, narrativas, memórias que se interligam e constroem diversas identidades. As cidades não são objetos, mas ideias hierarquizantes de lugares belos e feios, limpos e sujos, ricos e pobres objetificados nestes lugares.

A mudança de lugar de depósito, a diferenciação do que é ou não nojento, no caso do que é ou não lixo, está conectado com a remodelação das cidades e da “limpeza” dos centros urbanos. O repugnante, a doença, as (os) imigrantes, as (os) trabalhadoras (es), são afastados da paisagem central da cidade. A desigualdade social, a falta de acesso à educação, saúde e transporte público de qualidade assim como a destinação eficiente dos resíduos sólidos, não são resolvidas, mas escondidas.

Os lugares onde descartamos os objetos e restos deixam marcas profundas no planeta afetando de diferentes maneiras a biodiversidade, o ar, o solo, as águas e o cotidiano. Os lixões e aterros são de certa forma uma das características mais marcantes do que podemos chamar de Antropoceno.

O ambiente entendido como lugar possui memórias individuais e coletivas, públicas e particulares que não se processam unicamente por utilidade e necessidade. As injustiças sócio espaciais e de viés distributivo tem no ambiente seu terreno fértil. Na divisão dos benefícios e malefícios do desenvolvimento econômico as pessoas e lugares que ficam com o lado do dano ambiental são geralmente as que já sofrem com discriminações sociais variadas. Quando se constroem políticas públicas e as narrativas do que é ou não nojento se privilegia formas de ver e agir no ambiente.  Boaventura de Souza Santos diz que além de injustiça socioeconômica esta é também uma injustiça epistêmica que escolhe sempre a utilidade econômica de determinados grupos sociais.[4]

Nos últimos anos o Brasil teve um aumento na produção de lixo que ultrapassa seu crescimento populacional, ao mesmo tempo em que aprovou e implantou uma Política Nacional de Resíduos. A população brasileira aumentou 15,6% entre 1991-2000 já a produção de lixo domiciliar cresceu três vezes mais que isso, 49%.[5] Sobre a destinação desses resíduos a pesquisa Nacional de Resíduos Sólidos realizada pelo IBGE em 2008, 50,8% dos resíduos sólidos eram destinados para lixões a céu aberto, já a coleta seletiva acontecia em 994 dos 5.570 municípios brasileiros. Este índice tem melhorado nos últimos anos principalmente por exigência do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), Lei no 12.305, de 2 de agosto de 2010 depois de 20 anos de tramites legislativos, pois previa a eliminação dos lixões a céu aberto até o ano de 2014.

Dentre as várias questões possíveis, umas das perguntas que fica é: como com políticas públicas bem elaboradas os índices de reciclagem se mantém estagnados? Acreditamos que as respostas para a discrepâncias entre as Políticas Públicas e as experiências nos municípios não pode ficar no senso comum. É preciso ir além das propostas que responsabilizam apenas uma parte de um processo que envolve desde a geração até a destinação. As paisagens urbanas brasileiras são muitas vezes dicotômicas. Por exemplo nosso Distrito Federal (Brasília) tem um dos maiores lixões a céu aberto da América Latina (que começou a ser desativado no início deste ano) ao mesmo tempo que as cooperativas e organizações da sociedade civil desenvolvem milhares de possibilidades criativas e inteligentes para a reciclagem.  Os lixões são paisagens com extinção estipulada por lei, tanto pelos riscos de desastres ambientais quanto pela insalubridade nas condições de trabalho.

As comunidades que vivem dos resíduos muitas vezes são excluídas do processo e os depósitos afastados das cidades, mas são inúmeros os lixões clandestinos encontrados junto a comunidades de baixa renda.  São lugares persistentes que possuem modos peculiares de manejo. É necessário que entre estas comunidades se construam modos saudáveis e sustentáveis economicamente de trabalhar com os resíduos. Um dos caminhos possíveis é entender as relações construídas ao longo do tempo com estes lugares.

Neste sentido a História Ambiental tem muito a contribuir com pesquisas relacionadas ao lixo. Se lembrarmos da pergunta de Bauman: “As coisas são descartadas por sua feiura, ou são feias por terem sido destinadas ao lixo? ”[6]. As historiadoras e historiadores ambientais podem responder esta pergunta, ela não se refere apenas aos objetos refugados, mas também a todas as formas de vida e vivencias. Os resíduos são uma questão histórica à medida que os geramos, os significamos, os diferenciamos. “Resíduo é memória”[7] comum a todos e todas, compondo-o há uma diversidade de modos e formas ao longo do tempo e dos espaços, que devem ser investigados.


[1] Possui Bacharelado/Licenciatura e Mestrado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é Doutoranda e bolsista CAPES do Programa de Pós-Graduação em História pela mesma Universidade. Faz parte do Grupo de Pesquisa do CNPq: Laboratório de Imigração, Migração e História Ambiental. Pesquisadora dos seguintes temas: História Ambiental, Migração, Historia Ambiental Urbana.

[2]Trabalho apresentado e publicado nos anais do 4° Simpósio Internacional de História Ambiental e     Migrações. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, 2016. Este texto é parte da pesquisa de Doutorado em andamento no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, com Bolsa CAPES e orientação da Prof. Drª Eunice Sueli Nodari.

[3] DOUGLAS, M. Pureza e Perigo. São Paulo: Ed Perspectiva, 2012, p.50.

[4] BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p.6.

[5] WALDMAN, Mauricio. Reciclagem, catadores e gestão do lixo: dilemas e contradições na disputa pelo que sobra. Disponível em: http://www.mw.pro.br/mw/eco_palestra_santos_2011.pdf. Acessado em: setembro de 2015.

[6] BAUMAN, Zygmunt. op. cit. p.10

[7] BROD, Rodrigo De Azambuja; MAZZARINO, Jane Márcia. O Que Fica, O Que Flui Eo Que Fala: Lugares Identitários No Ambiente Urbano. Ambiente & Sociedade, v. 18, n. 4, p. 55-74, 2015.p.55.


 

 

 

  • Possui Bacharelado/Licenciatura e Mestrado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é Doutoranda e bolsista CAPES do Programa de Pós-Graduação em História pela mesma Universidade. Faz parte do Grupo de Pesquisa do CNPq: Laboratório de Imigração, Migração e História Ambiental. Pesquisadora dos seguintes temas: História Ambiental, Migração, Historia Ambiental Urbana.
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